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Exu foi o primeiro filho de Iemanjá e Oxalá. Ele era muito levado e gostava de fazer brincadeiras com todo mundo.Tantas fez que foi expulso de casa. Saiu vagando pelo mundo, e então o país ficou na miséria, assolado por secas e epidemias. O povo consultou Ifá, que respondeu que Exu estava zangado porque ninguém se lembrava dele nas festas; e ensinou que,para qualquer ritual dar certo, seria preciso oferecer primeiro um agrado a Exu. Desde então, Exu recebe oferendas antes de todos, mas tem que obedecer aos outros Orixás, para não voltar a fazer tolices.

Um homem rico tinha uma grande criação de galinhas. Certa vez, chamou um
pintinho muito travêsso de Exu, acrescentando vários xingamentos. Para se
vingar, Exu fez com que o pinto se tornasse muito violento. Depois que se tornou
galo, ele não deixava nenhum outro macho sossegado no galinheiro: feria e
matava todos os que o senhor comprava. Com o tempo, o senhor foi perdendo a criação
e ficou pobre. Então, perguntou a um babalaô o que estava acontecendo. O
sacerdote explicou que era uma vingança de Exu e que ele precisaria fazer um ebó
pedindo perdão ao Orixá. Amedrontado, o senhor fez a oferenda necessária e o
galo se tornou calmo, permitindo que ele recuperasse a produção.

Certa vez, dois amigos de infância, que jamais discutiram, esqueceram-se de
fazer-lhe as oferendas devidas para Esù. Foram para o campo trabalhar, cada um
na sua roça. As terras eram vizinhas, separadas apenas por um estreito
canteiro. Esù, zangado pela negligência dos dois amigos, decidiu preparar-lhes
um golpe à sua maneira: Ele colocou sobre a cabeça um boné pontudo que era
branco do lado direito e vermelho do lado esquerdo. Depois, seguiu o canteiro,
chegando à altura dos dois trabalhadores amigos e , muito educadamente,
cumprimentou-os:
"Bom trabalho, meus amigos !"
Estes, gentilmente, responderam-lhe:
"Bom passeio, nobre estrangeiro !"
Assim que Esù afastou-se, o homem que trabalhava no campo da direita, falou
para o seu companheiro:
"Quem pode ser este personagem de boné branco ?"
"Seu chapéu era vermelho", respondeu o homem do campo a esquerda.
"Não, ele era branco, de um branco de alabastro, o mais belo branco que
existe !"
'Ele era vermelho, de um vermelho escarlate, de fulgor insustentável !"
"Ele era branco, tratar-me de mentiroso ?" "Ele era vermelho, ou
pensas que sou cego ? "
Cada um dos amigos tinha razão e ambos estavam furioso da desconfiança do
outro. Irritados, eles agarraram-se e começaram e bater-se até matarem-se a
golpes de enxada.

Conta-se que Aluman estava desesperado
com uma grande seca. Seus campos estavam secos e a chuva não caia. As rãs
choravam de tanta sede e os rios estavam cobertos de folhas mortas, caídas das
árvores. Nenhum Òrìsà invocado escutou suas queixas e gemidos. Aluman
decidiu, então, oferecer a Esù grandes pedaços de carne de bode. Esù comeu
com apetite desta excelente oferenda. Só que Aluman havia temperado a carne com
um molho muito apimentado. Esù teve sede. Uma sede tão grande que toda a água
de todas as jarras que ele tinha em casa, e que tinham, em suas casas, os
vizinhos, não foi suficiente para matar sua sede.
Esù
foi a torneira da chuva e abriu-a sem pena. A chuva caiu. Ela caiu de dia, ela
caiu de noite. Ela caiu no dia seguinte e no dia depois, sem parar. Os campos de
Aluman tornaram-se verdes. Todos os vizinhos de Aluman cantaram sua glória:
"Joro, jara, joro Aluman; Joro, jara, joro Aluman."
E as rãsinhas gargarejavam e coaxavam, e o rio corria velozmente para não
transbordar. Aluman, reconhecido, ofereceu a Esù carne de bode com o tempero no
ponto certa da pimenta. Havia chovido bastante.

Um dia Orunmilá foi procurar
Osalá em seu palácio. Orunmilá e sua mulher queriam ter um filho. Chegando ao
palácio de Osalá, Orunmilá encontrou Esú Yangui sentado à esquerda da
entrada principal. Já dentro do palácio, e diante do velho rei, Orunmilá fez
seu apelo, escutando de Osalá uma resposta negativa. O velho rei afirmou-lhe
que ainda não era tempo da chegada de um filho. Orunmilá, insatisfeito e ao
mesmo tempo curioso, perguntou à Osalá quem era aquele menino sentado à porta
do palácio e pediu ao rei, se poderia levá-lo como filho. Osalá
garantiu-lhe que não era o filho ideal de se ter, ao que Orunmilá insistiu
tanto em seu pedido que obteve a graça de Osalá.
Tempos
depois nasceu Esú, filho de Orunmilá. Para espanto dos pais, nasceu falando e
comendo tudo que estava a sua volta, acabando por devorar a própria mãe. Esú
aproximou-se de Orunmilá para também comê-lo, entretanto o adivinho tinha
consigo uma espada e enfurecido partiu para matar o filho. Esú fugiu, sendo
perseguido por Orunmilá, que a cada espaço do céu alcançava-o, cortando Esú
em duzentos e um pedaços. A cada encontro, o ducentésimo primeiro pedaço
transformava-se novamente em Esú. Assim terminaram por atingir o último espaço
sagrado e, como não tinham mais saída, resolveram entrar num acordo. Esú
devolveu tudo o que havia comido, inclusive sua mãe, em troca seria sempre
saudado primeiro em todos os rituais.
Referência Bibliográfica:
VERGER, Pierre; Orixás, Deuses Iorubás na Africa
e no Novo Mundo; 5.ª ed; Currupio, Salvador, 1997.
VERGER, Pierre;
Notas sobre o culto aos orixás e voduns; Edusp, São Paulo, 1999.
e vários sites