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Obá era uma das mulheres de Xangô, mas ela não era nem aventureira como Iansã, nem dengosa como Oxum; por isso, se sentia desprezada pelo marido. Percebendo que Xangô gostava da comida feita por Oxum, pediu-lhe que a ensinasse a cozinhar. Para enganá-la, Oxum cobriu a cabeça com um pano, fez uma sopa de cogumelos e disse que era o prato preferido de Xangô, uma sopa com suas orelhas. Obá fez uma sopa em que colocou uma de suas orelhas. Quando Xangô chegou, ela o serviu toda contente, mas quando ele viu a orelha, ficou enojado e brigou com ela. Nisso, Oxum tirou o pano da cabeça, mostrando as orelhas perfeitas, e começou a rir. Furiosa, Obá se atirou sobre ela e as duas brigaram até que Xangô explodiu de raiva, fazendo as duas fugirem e se transformarem em rios. É por isso que, ao dançar, Obá cobre uma orelha com o escudo.

Obá escolheu a guerra para dar
alegria à sua vida. Enfrentava a tudo e a todos, vencendo sempre.
Um dia Obá desafiou Ogum, que era um valente guerreiro. O ardiloso Ogum, que
sabia da bravura de Obá, foi procurar os adivinhos para que o aconselhassem
sobre a melhor maneira de vencer a guerreira. Foi-lhe recomendado oferecer uma
gamela contendo espigas de milho e quiabos, tudo bem pilado, formando uma massa
viscosa e escorregadia. Ogum preparou a oferenda, colocando-a num canto do lugar
onde lutariam.
Obá chegou altaneira e em tom desafiador começou a dominar a luta. Lá pelas
tantas Ogum levou-a até onde estava a oferenda e Obá, desajeitada, caiu sobre
a oferenda escorregando sem parar. Na queda, Ogum aproveitou e possuiu Obá ali
mesmo, tornando-se seu primeiro homem.
Tempos depois Sango roubou Obá de Ogum.
Obá era uma mulher vigorosa e cheia de coragem. Faltava-lhe, talvez, um
pouco de charme e refinamento. Mas ela não temia ninguém no mundo. Seu maior
prazer era lutar.
Seu vigor era tal que ela escolheu a luta e o pugilato como profissão. Obá
saiu vencedora de todas as disputas que foram organizadas entre ela e diversos
orixás. Ela derrotou Obatalá, tirou Oxossi de combate, deixou no chão Orunmilá.
Oxumaré não resistiu à sua força.
Ela desafiou Obaluaê e botou Exú prá correr. Chegou a vez de Ogum!
Ogum teve o cuidado de consultar Ifá, antes da luta. Os adivinhos lhe
disseram para fazer oferendas, compostas de duzentas espigas de milho e muitos
quiabos. Tudo pisado num pilão para se obter uma massa viscosa e escorregadia.
Esta substância deveria ser depositada num canto do terreno onde eles lutariam.
Ogum seguiu, fielmente, estas instruções. Na hora da luta, Obá chegou
dizendo: "O dia do encontro é chegado".
Ogum confirmou: "Nós lutaremos, então, um contra o outro". A luta
começou.
No início, Obá parecia dominar a situação. Ogum recuou em direção ao
lugar onde ele derramara a oferenda. Obá pisou na pasta viscosa e escorregou.
Ogum aproveitou para derrubá-la. Rapidamente, libertou-se do seu pano e a
possuiu ali mesmo, tornou-se, dessa maneira, seu primeiro marido.
Mais tarde, Obá tornou-se a terceira mulher de Xangô, pois ela era forte e
corajosa. A primeira mulher de Xangô foi Oiá-Iansã que era bela e fascinante.
A segunda foi Oxum, que era coquete e vaidosa.
Uma rivalidade logo se estabeleceu entre Obá e Oxum. Ambas disputavam a
preferência do amor de Xangô. Obá procurava, sempre, surpreender o segredo
das receitas utilizadas por Oxum quando esta preparava as refeições de Xangô.
Oxum, irritada, decidiu preparar-lhe uma armadilha. Convidou Obá a vir, um
dia de manhã, assistir à preparação de um prato que, segundo ela, agradava
infinitamente a Xangô. Obá chegou na hora combinada e encontrou Oxum com um
lenço amarrado à cabeça, escondendo as orelhas.
Ela preparava uma sopa para Xangô onde dois cogumelos flutuavam na superfície
do caldo. Oxum fez crer a Obá que se tratava de suas orelhas, que ela
cozinhava, assim, para preparar o prato favorito de Xangô. Este logo chegou,
vaidoso e altivo. Engoliu, ruidosamente e com deleite, a sopa de cogumelos e,
galante e apressado, retirou-se com Oxum para o quarto.
Na semana seguinte, era a vez de Obá cuidar de Xangô. Ela decidiu pôr em
prática a receita maravilhosa. Xangô não sentiu nenhum prazer ao ver que Obá
se cortara uma das orelhas. Ele achou repugnante o prato que ela lhe preparara.
Neste momento, Oxum chegou e retirou o lenço, mostrando à sua rival que suas
orelhas não haviam sido cortadas, nem comidas.
Furiosa, Obá precipitou-se sobre Oxum com impetuosidade. Uma verdadeira luta
se seguiu. Xangô, encolerizado, trovejou sua fúria. Apavoradas, Oxum e Obá
fugiram e se transformaram em rios.
Até hoje, as águas destes rios são tumultuadas e agitadas, no lugar de sua
confluência, em lembrança da briga que opôs Oxum e Obá pelo amor de Xangô.
Referência Bibliográfica:
VERGER, Pierre; Orixás, Deuses Iorubás na Africa
e no Novo Mundo; 5.ª ed; Currupio, Salvador, 1997.
VERGER, Pierre;
Notas sobre o culto aos orixás e voduns; Edusp, São Paulo, 1999.
e vários sites